(De cara, devo dizer que este texto não fará qualquer sentido para muitas pessoas, que habitaram diversos lares ao longo da vida, mas quem, como eu, nasceu e cresceu sempre debaixo do mesmo teto deve entender o porquê das palavras abaixo.)
Hoje é um dia estranho pra mim. Devido à correria profissional em que ando, pouco tenho atualizado este blog, porém senti que precisava "botar pra fora" o que estou sentindo.
Isso porque, enquanto estou tão longe de casa, em Frankfurt, na Alemanha, minha mãe está se mudando da casa onde ela e meu pai construíram suas vidas, criaram os quatro filhos, viram os nove netos correndo pelo enorme quintal e viveram tantas coisas maravilhosas - e péssimas.
Naquela casa tão acolhedora, li meus primeiros quadrinhos, joguei muito futebol e vôlei com meu irmão, disputei incontáveis partidas de futebol de mesa e tênis de mesa (os populares jogo de botão e pingue-pongue), briguei com meus pais, saí no tapa com meus irmãos, vi todas as Copas do Mundo da minha vida (e comemorei três títulos) e tantos triunfos (e fracassos) do meu Corinthians, me machuquei, brinquei de balanço, coloquei ratoeiras, chorei e ri pra caramba.
O lar dos Gusman, na boa e velha Mooca, em São Paulo, me viu fazer inúmeras caças ao tesouro para meus filhos e sobrinhos (a última, espetacular, modéstia à parte, foi há pouco mais de 15 dias, numa noitada de despedida que armamos, com todos os nove netos, de 5 a 21 anos, no escuro e devidamente munidos de lanternas). Também me viu ser office boy, professor de educação física, repórter esportivo de rádio e, enfim, começar a escrever sobre quadrinhos. Aqueles armários abrigaram até outro dia todos os meus formatinhos.
Aquelas paredes testemunharam a roupa de Papai Noel passar do meu saudoso pai para mim, pois as crianças da família sempre receberam (e receberão) seus presentes, na noite de Natal, do "bom velhinho". E não dá nem pra contar quantos dias dos pais, das mães e das crianças, páscoas, festas juninas, amigos secretos, aniversários e outros encontros familiares aconteceram ali.
Mas acho que esse monte de lembranças boas só existe porque sei muito bem do esforço que o meu pai fez para comprar aquela casa. E que foi ainda maior quando, nos anos 1980, ele decidiu reformar o lar dos Gusman – até então bastante simples –, para nos proporcionar mais conforto. A partir de então, os meninos passaram a ter um quarto; e as meninas, outro. E ganhamos um salão, nos fundos, para fazer a lição e brincar.
Daquela época, lembro bem dos passeios de domingo, quando minha mãe, a Dona Nina, nos fazia entrar e sair de diversas casas, com o intuito de se mudar. Só que o seu Domingos preferiu ficar, pois tinha um apreço enorme por aquele lugar. Talvez pelo suor que derramou para mantê-lo em pé - assim como sempre fez com a sua família.
E porque sabia que, por não ser um cara de posses, a casa era o que deixaria para minha mãe quando partisse. E fico feliz de ter ajudado para que o sonho dele acontecesse. Afinal, é claro que ali também vivemos coisas ruins. Mas essas recordações servem para fortalecer o tanto de momentos incríveis que experimentamos naquela "casa de loucos", como a Dona Nina sempre falava quando estava uma gritaria absurda de crianças e adultos. :-)
Não sou um cara que se apega tanto a bens materiais, mas, antes de sair do Brasil, admito que me bateu uma tristeza enorme ao pensar que, quando eu voltar, não será mais lá que a família se reunirá nos almoços de domingo, nas pizzas de sexta-feira ou em qualquer outro dia da semana que justificasse nosso encontro. E que o Natal deste ano será em outro lugar, os jogos do Brasil na Copa do Mundo de 2014 serão vistos em outra casa etc.
Só que logo passou. Porque, como falei ao novo proprietário, se ele e sua família alcançarem metade da felicidade que minha mãe teve ali, já serão felizes pra caramba. E torço demais por isso.
A Dona Nina, tenho certeza, vai ser extremamente feliz em seu novo (e mais aconchegante - ou seja, adequado à sua real necessidade atual) lar; e o seu Domingos, de onde estiver, está orgulhoso. Afinal, os Gusman estão saindo daquela adorável casa, mas ela nunca vai sair de nós.
A Dona Nina, tenho certeza, vai ser extremamente feliz em seu novo (e mais aconchegante - ou seja, adequado à sua real necessidade atual) lar; e o seu Domingos, de onde estiver, está orgulhoso. Afinal, os Gusman estão saindo daquela adorável casa, mas ela nunca vai sair de nós.





































