Hoje, completo 46 anos. Este é o meu segundo aniversário sem o meu pai, o “seu” Domingos. Em 2010, uma semana antes de eu fazer 44, ele partiu pro andar de cima, depois de lutar um bocado pela vida.
A saudade do velho Mingo ainda machuca, tanto que, em 2011, na
HQ Con, em Florianópolis, eu estava palestrando em pleno Dia dos Pais e, quando me lembrei dele, não consegui me controlar e caí no choro – e ocorreu o mesmo em Belém, este ano. Mas ele, que me ensinou tantas coisas em vida, continuou suas lições até na hora de se despedir.
Nunca imaginei, por exemplo, que teria coragem de dizer pro meu pai, no leito de um hospital (após mais de um ano entre idas e vindas da UTI), pra que “descansasse”. Era egoísmo demais de minha parte querer tê-lo mais tempo do meu lado, à custa de tanto sofrimento.
Meu pai era meu ídolo. Tive um monte de diferenças com ele na juventude? Claro, como ocorre com praticamente todo mundo, mas eu nutria uma admiração gigante por ele. Um cara que só cursou até o quarto ano do primário, mas sempre nos proporcionou um bom colégio e fez questão que seus filhos fizessem faculdade, para “ter um futuro melhor”.
Ele me colocou pra trabalhar aos 14 anos, e hoje agradeço demais por isso. Trabalhava na firma dele, é verdade, mas comecei (com muito orgulho) como
office-boy, pra aprender o caminho das pedras.
E é dessa época a recordação, muito viva ainda, sobre a qual escrevo agora; e que tem ligação com os quadrinhos. Assim que comecei a ganhar meu próprio dinheiro, gastava bastante em HQs – especialmente nos formatinhos de super-heróis da
Abril. Por isso, não foram poucas as vezes em que ele abriu a porta do quarto que eu dividia com meu irmão mais novo e esbravejou, com seu jeitão espanhol (na verdade, meus avós eram espanhóis): “Sidney, o que esta merda vai te dar?”.
Aquilo me enfurecia, evidente. Algumas discussões aconteceram, mas, felizmente, ele nunca passou da promessa de dar fim às minhas revistas.
O tempo passou e, depois de ter me formado em Educação Física, passei a cursar jornalismo (sempre pagando do próprio bolso a faculdade). Após dois anos batendo cabeça como repórter esportivo de rádio (enquanto ainda trabalhava com meu pai), veio a oportunidade de transformar a minha paixão pelos quadrinhos numa oportunidade de emprego, como contei no
post inaugural deste
blog.
Lembro bem da cara do meu pai quando lhe contei que havia conseguido minha primeira matéria: era um misto de surpresa e orgulho. Quando o texto foi publicado, ele, com seu jeito durão de ser, me parabenizou, mas era nítido que ainda não entendia bem o que aquilo representava pra mim.
Quando começaram a sair matérias minhas (ainda como
free-lance) em jornais que ele lia sempre (
Jornal da Tarde,
Folha da Tarde e
Estado de S.Paulo), aí, sim, a coisa mudou.
Um belo dia, o “seu” Mingo me chamou e disse: “Filho, eu não entendo nada do que você escreve, mas você escreve bem pra caramba”. Como aquilo me fez bem! Não pelo elogio ou pelo reconhecimento, mas porque meu pai, naquele momento, pressentia que eu não queria continuar o negócio (de tratores e peças usadas) que ele tocava havia quase 40 anos; que minha ideia era voar com minhas próprias “asas”.
E foi o que aconteceu. Veio o primeiro emprego na área de quadrinhos, na
Editora Globo, meu pai foi "amolecendo" com a idade e passou a curtir, com orgulho indisfarçável, todas as minhas conquistas, matérias, prêmios, empregos novos... E o resto é história.
Mas há um episódio que me marcou demais. Dezesseis anos depois, em 2006, na
Bienal do Livro de São Paulo, eu estava autografando, junto com o Mauricio de Sousa, o livro
Mauricio - Quadrinho a Quadrinho, da
Globo. Foi quando vi aquela inconfundível cabeleira branca se aproximando por trás de dezenas de pessoas que estavam em frente ao estande.
Imediatamente me levantei e vi meu pai (que, àquela altura, já não tinha o mesmo vigor físico de antes, devido a pequenas isquemias cerebrais) e minha mãe chorando copiosamente. Aquilo me fez desmoronar, na frente de todo mundo. Meu velho me abraçou e, ao meu ouvido, ameaçou um pedido de desculpas.
Enquanto o Mauricio dizia pra ele, com o livro nas mãos: "Viu que coisa linda o seu filho fez?", pedi ao “seu” Mingo que não se desculpasse. Afinal, eu já era pai (na acepção da palavra, como ele foi pra mim) e sabia o quanto a gente se preocupa com o futuro dos filhos. E, distante do ímpeto juvenil de outrora, eu agora compreendia que ele não teve, pela falta de estudo e de informação, a oportunidade de saber que os quadrinhos podiam, sim, abrir muitas portas pro filho mais velho dele. Bastava eu saber aproveitar. Que bom que herdei não apenas a determinação dele, mas também sua teimosia.
Depois que me casei, em todo dia 29 de agosto, o telefone tocava por volta das 7 horas da manhã. Do outro lado da linha, meu pai cantarolava o começo de
Parabéns a você, com a voz embargada. Aí, ele brincava com a idade que eu estava completando, pra não chorarmos os dois. Mas, naquele dia de março de 2006, na
Bienal, ele nem procurou se conter. Ainda bem, “seu” Domingos, ainda bem.